A Análise Transacional no Treinamento Experiencial
Daniel Spinelli e Eneida Ludgero
A Análise Transacional no Treinamento Experiencial

 

            Novas abordagens vêm sendo buscadas e utilizadas para potencializar os resultados de aprendizagem em treinamentos organizacionais. Nessa busca, existem dois conceitos consagrados (Analise Transacional e Educação Experiencial) que têm sido encontrados pelos profissionais de treinamento e desenvolvimento como boas opções de fundamentação ou de método de trabalho.

Por me dedicar aos estudos das duas abordagens bem como utilizá-las em treinamentos organizacionais, comecei a descobrir grandes similaridades entre ambas a começar pelos seus princípios filosóficos.

A proposta desse texto é de apresentar os principais pontos comuns que encontrei no decorrer de uma série de pesquisas e experimentações, e a partir daí propor um novo ciclo de aprendizagem para treinamentos para que as duas metodologias possam ser utilizadas conjuntamente.    

 

1 - Conhecendo as Teorias:

 

1.1 - Sobre a Análise Transacional:

             A Análise Transacional é uma teoria de estudo da estrutura da personlidade humana a partir das transações que um indivíduo faz consigo mesmo e com as outras pessoas. Foi desenvolvida por Eric Berne, psiquiatra Canadense em 1958.

 

1.2 - Sobre o Treinamento Experiencial

            O treinamento experiencial propõe, na visão de seu criador o educador e filósofo Kurt Hahn, que os treinamentos ao ar livre, utilizando situações de desafios, desenvolvam o potencial humano influenciando mudança positiva.

           

2 – Conhecendo os Autores

E para poder entender suas essências, conheçamos primeiro um pouco de seus criadores:

 

2.1 - Eric Berne (1910-1970)

            Originador e grande líder de muitos estudos pelos quais se fez desenvolver e aplicar a Análise Transacional. Escreveu 8 livros e publicou inúmeros artigos. “Estudou psiquiatria e psicanálise mas nunca se tornou analista profissional” (WOOLAMS & BROWN. 1979). As primeiras teorias de Berne sobre AT apareceram em 1949 e em 1958 Berne deu início ao primeiro seminário de AT. Em 1962 deu início ao Transactional Analiyses Bulletin que em 1971 se transformou no Transactional Analyses Journal. As contribuições de Eric Berne são principalmente na área da teoria e da filosofia, seus livros são até hoje pontos de referencia para profissionais e estudiosos das teorias do comportamento humano.

            Algumas de suas crenças nos dão uma idéia das bases fundamentais da AT.

“Dizer olá corretamente, é ver a outra pessoa, estar consciente dela como um fenômeno, acontecer para o outro e estar pronto para que o outro aconteça para você”

“ O destino de todo o ser humano é decidido pelo que se passa dentro de sua cabeça quando confrontado com o que acontece fora dela. Cada pessoa traça sua própria vida. A liberdade confere-lhe o poder de realizar seus próprios desígneos ...” 

 

“Todos nós nascemos príncipes e princesas, mas a vida nos torna sapos acomodados a coachar na beira da lagoa.”

 

 

2.2 - Kurt Hahn (1886 – 1974)    

Kurt Hahn, alemão, fundou a Atlantic College, a Gordonstoun School e a Salem School. Com formação básica em Filosofia iniciou um movimento educacional com ênfase em formar pessoas boas do que com realizações acadêmicas.  Durante a segunda guerra mundial liderou uma campanha para a paz e com isso se aproximou de pessoas influentes na Inglaterra para onde havia sido exilado pois era de família judia e por causa de seus ideais educacionais que nutria nos jovens convicção baseadas em responsabilidade pessoal, igualdade e justiça (temas chaves da linha educacional utilizada por Hahn durante toda a vida).

Foi contratado na Inglaterra para desenvolver estudos e um método para que se aumentassem as chances de sobrevivência dos marinheiros nos naufrágios de guerra. Nascia ali o Outward Bound, tipo de treinamento experiencial que visava desenvolver o individuo (físico, emocional e técnico) através de atividades ao ar livre que envolvessem desafios. Para Hahn, “mais do que um treinamento para o mar, um treinamento pelo mar”. , o que virou a essência dos treinamentos Outward Bound.

Os Conceitos e as Idéias de Hahn

            Kurt Hahn escreveu muito pouco em sua vida, ele acreditava que suas idéias não eram originais e foram extraídas de muitos outros pensadores. Pensava que seu papel era aplicar suas idéias em si mesmo, compartilhar e multiplicar através das pessoas, muitos de seus pupilos levaram suas idéias a frente. Outras importantes escolas foram fundadas com seus conceitos, tais como a Atlantic Challenge, a Kurt Hahn Trust e a Round Square.  

A base dos treinamentos de Hahn traziam o conceito de que o objetivo da eduação é de impelir as pessoas para experiências formadoras de valores, de forma a garantir a sobrevivência das seguintes qualidades:

- Uma curiosidade empreendedora;  Um espírito infatigável;  Tenacidade na busca e Solidariedade

 

Para Hahn:

“Cada pessoa tem mais coragem, força e compaixão do que jamais mensurou”.  

"A experiência de ajudar um colega em perigo, ou mesmo da formação realista de estar preparados para dar essa ajuda, tende a mudar o equilíbrio de poder interior na vida de um ser humano com o resultado que a compaixão pode se tornar um valor intrínseco."

 

Definições:

“O aprendizado experiencial é um tipo de programa educacional e/ou terapêutico no qual as demandas físicas e psicológicas da aventura são utilizadas (dentro de um quadro de segurança) para promover crescimento inter e intrapessoal.” (Bagby & Chavarria, 1980)

 

3 - Similaridades:

Conhecendo um pouco mais das idéias e dos trabalhos de ambos os fundadores, notamos que muito possuem em comum, em especial suas crenças no potencial humano. Mais algumas similaridades se destacam como:

 

Ø  Ambos estudaram um ambiente militar na fase embrionária de desenvolvimento de seus estudos com os conceitos aqui estudados. Os artigos e estudos realizados por Berne na sua fase como psiquiatra do exercito americano resultaram no livro “Intuição e Estados de Ego” e os estudos realizados por Hahn com a marinha inglesa na segunda guerra mundial geraram a criação do sistema de treinamento experiencial.      

 

Ø  Trabalho com grupos. Berne, em 1963, fase inicial do desenvolvimento da AT, escreve o livro “Estrutura e Dinâmica das Organizações e dos Grupos”. O treinamento experiencial utiliza como ambiente as jornadas ao ar livre em grupos.

 

            Mas além de qualquer herança registrada dessas similaridades, posso contribuir com a construção dessa idéia com minhas percepções geradas pelas observações dos trabalhos que realizamos utilizando conjuntamente as duas teorias. Nesses trabalhos temos encontrado grade sinergia, percebendo principalmente como a AT contribui para que o participante perceba o grupo e a si mesmo melhor, utilizando-se inclusive dos acessíveis termos “transacionais” para melhorar a qualidade das discussões nos processamentos das experiências.          

 

4 – Proposição

            Muitos autores apresentaram modelos de aprendizagem experiencial, mas a maioria deles de uma forma geral concordam que há 4 fases distintas que compreendem o Ciclo de Aprendizagem. Apresento aqui o Ciclo como base para que possamos, a partir dele, apresentar nossa proposta:

 

 

                                                                                                     Figura 1

 

            Temos utilizado nos trabalhos com grupos organizacionais duas possibilidades de abordagem de recortes da teoria da Analise Transacional durante um treinamento:

 - Antes da Experiência (Figura 2)

- Após a Reflexão, nesse caso a experiência também serviria como estímulo para uma melhor assimilação do conceito. (Figura 3)

            Em ambos os casos, após a apresentação dos conceitos pertinentes aos temas focos do treinamento, nos próximos ciclos (referente as próximas atividades) o Conceito de AT funciona como um pano de fundo que ajuda a mapear todo o treinamento.

 

 

                                                                                 Figura 2

 

 

 

 

                                                                              Figura 3

5 - Conclusão:

            Na continuidade dos princípios ideológicos dos autores aqui estudados, Kurt Hahn e Eric Berne, queremos mostrar que a utilização responsável e complementar dos conceitos da Analise Transacional com a metodologia de aprendizagem experiencial pode potencializar os resultados em treinamentos organizacionais. Maior entendimento do participante em relação ao seu processo de desenvolvimento; mais possibilidades de instrumentos de autopercepção e de automonitoramento; e mais subsídios para o planejamento dos trabalhos são alguns dos benefícios que temos observado em nossas observações.

            Esperamos com esse texto ter contribuído para que se amplie a reflexão e os estudos para a utilização dos conceitos aqui apresentados.            

 

Bibliografia

BERNE, Eric. O que você diz depois de dizer ola?. Nobel, 1988.

NADLER, Reldan e Luckner, John. Processing The Adventure Experience. Kendal/Hunt, 1992.

Krausz, Rosa. Trabalhabilidade. Nobel, 1999

DINSMORE, Paul. Treinamento Experiencial ao Ar Livre, Uma Revolução em Educação Empresarial. Senac Rio, 2004

JAMES e JONGEWARD. Mascido para Vencer. Brasiliense. 1975

O Kurt-Hahn-Archive é um arquivo central para os interessados na obra de Kurt Hahn. Ele esta localizado na Schule Schloss Salem no sul da Alemanha.  

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